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Erotexto é um blogue dedicado ao erotismo que tem por característica uma rica diversidade de estruturas narrativas. Seu objetivo é triplo: entreter, desenvolver o interesse pela escritura e - o principal - motivar a reflexão sobre a libido e a busca do prazer, cujo fundamento biológico acredito ser de caráter essencial e universalmente bissexual.

Erotexto tem formato fixo. A primeira página comporta a última narrativa proposta (não necessariamente a última criação). O material arquivado consiste de contos e relatos classificados por categoria sob a rubrica "EroStock" (coluna à direita), bem como séries, novelas e folhetins. Para conhecer a acepção em que cada estrutura narrativa foi tomada, convido o leitor a clicar em "Pequena Teoria da Narrativa", aqui acima.

Uma comunicação contínua com o leitor faz-se através da rubrica "EroNovas", a primeira da coluna à direita. Meu e-mail está à sua disposição. Para reagir a uma publicação, clique na palavra "comentário", abaixo de cada texto.

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Marc Fauwel

A Odisséia de Aninha (folhetim, episódio XXVI)

26. Bastidores

Quando Aninha surge no amplo salão onde outra recepção tem lugar, ela imediatamente percebe a diferença. Uma maioria de homens, todos extremamente bem vestidos e desacompanhados assistem ao que parece ser um desfile de modelos de ambos os sexos que Aninha logo descobre estarem completamente nus. Temerosa, ela dá um passo atrás, mas Norberto a faz entrar abraçando-a pela cintura. Aninha se sente imediatamente observada pelos homens mais próximos.
– Não estou entendendo… diz ela, sentindo seu coração aos pulos e travando o passo.
– Fique tranquila, Ana, e continue sorrindo. Daqui a pouco, você estará se sentindo uma rainha, diz Norberto, acariciando-a já abaixo da cintura.

Um espaço logo se faz em torno deles e todos aplaudem a chegada do anfitrião com a jovem que ele agora traz pela mão, deslumbrante no vestido branco que destaca-lhe as  formas perfeitas. O volume da música é baixado e os convidados se calam.
– Senhores, quero apresentar-lhes a Ana, nossa mais recente colaboradora, uma jovem ambiciosa que tem pela frente o futuro que escolher. Como todos sabem, Ana está gerenciando a butique Conchas e Crustáceos durante a ausência da proprietária, ausente do país. Digo e afirmo que a Ana transformou essa butique no maior sucesso da cidade, e é com muito orgulho que informa a todos que isso se deu a partir do momento em que ela tomou a decisão de associar-se à nossa agência. É por isso que a Ana é a nossa homenageada de hoje. Ela estará em nossa companhia até o fim da nossa recepção anual que já provou ser um sucesso absoluto e vai se tornando tradição na família da agência Happy Hour.

As palmas ressoam enquanto todos os olhares convergem para Aninha, cuja roupa revela uma sutil transparência sob as luzes fortes da passarela improvisada. De certos ângulos, é possível mais que adivinhar que ela não está usando nada por baixo do vestido elástico e perfeitamente ajustado ao corpo. Norberto a faz dar uma volta e a puxa para si para abraçá-la. O efeito do champanhe que lhe foi servido no andar de cima somado aos elogios contidos astutamente inseridos no pequeno discurso do big boss da agência resultam numa descontração um tanto eufórica e irrefletida, mais fruto da lisonja do que outra coisa. A música volta a preencher o salão, o desfile é retomado e Aninha deixa-se levar por Norberto, que vai apresentando-a de grupo em grupo. Ela recebe elogios e se sente admirada por esses homens maduros que sabem como se dirigir a uma mulher bonita. Garçons passam constantemente, ela procura alimentar-se um pouco, mas não dispensa o champanhe oferecido por Norberto, que procura mantê-la alheia ao que transcorre por trás dos bastidores da luxuosa recepção para executivos muito bem sucedidos.
– É a Amanda! diz ela subitamente, apontando para a jovem morena e bonita que desfila entre duas fileiras de convidados tão próximas que é possível tocá-la.
– Você a conhece? pergunta Norberto, franzindo o cenho.
– Claro! Ela estagiou lá na loja, esta semana. É um doce de menina. Foi boa idéia chamar os modelos da agência para animar a festa.
– Ah, sim, foi mesmo… responde ele, um tanto distante. Você me dá licença um instante, Aninha?
– Claro. Vou esperar aqui vendo o desfile.
– Está bem.

Norberto se afasta e vai diretamente dizer diz alguma coisa a um homem que parece fazer parte da organização da recepção. Ao mesmo tempo, algo acontece que chama a atenção de Aninha. Um homem de cerca de 45 anos levantara a mão imediatamente antes que Amanda começasse a desfilar e Aninha pôde observar, sem dar maior importância ao fato, que a jovem que desfilara anteriormente saiu do salão por uma porta pela qual, minutos depois, o tal homem sairia também. O que chamou sua atenção foi que o mesmo ia acontecendo com Amanda, mas ao se encaminhar para a porta, estaa foi interceptada pelo homem com quem Norberto falou e voltou ao grupo de modelos que iam desfilar. Inteligente, Aninha percebeu algo no ar, mas estava um pouco alta para ter idéias perfeitamente claras. Isso não a impediu de perceber no semblante dos modelos que conversavam um ar de inquietude.
– E então? Está gostando do desfile? diz Norberto, de volta.
– Eles são todos lindos. Foi você que teve a idéia do desfile sem roupa?
– É, nós sempre inventamos algo novo para as nossas festas. Essa clientela é muito especial, Ana. São homens e mulheres extremamente bem-sucedidos na vida, para os quais o céu é o limite, literalmente. Essas pessoas têm desejos requintados e os meios para realizar qualquer um deles por mais excêntrico que seja.
– É sério? Uau! exclama Aninha, deslumbrada. Você está falando de casas, carros, comidas, bebidas, roupas, viagens, não é?
– É… isso também, responde ele com um risinho, mas eles têm sonhos e fantasias que você nem imaginaria possíveis, Ana.
– Que eu nem imagino? Será? Me conte algum…
– Olhe, preciso dar um pulo lá em cima para estar um pouco com os outros convidados. Vou deixar você em ótima companhia aqui com o Belisário. Peça o que quiser a ele, está bem? É como se você estivesse comigo.
– Mas…

Belisário é um homem de 1,90m, careca, com porte de "homem do presidente". Ele não repara que Aninha torna a ver um convidado erguer discretamente a mão e, minutos depois, o modelo que acaba de desfilar – desta vez um rapaz magro de cabelo longo – sair do salão e ser seguido por ele.
– Para onde eles vão? pergunta ela.
– Para onde quem vai, diz ele, fazendo-se de desentendido.
– O menino que desfilou e o cara que foi atrás, ora!
– Quem sabe ao banheiro?
– Hm... Pode ser.

A palavra "banheiro" ecoa na cabeça de Aninha e ela não perde a deixa.
– Por falar nisso, sou eu que estou com vontade de ir ao banheiro. Onde é mesmo?
– Lá, diz o homem, apontando para outra porta bem afastada da porta em questão.
– Então eles não foram ao banheiro, diz ela rindo!
– Você acha que só tem um banheiro nessa cobertura? diz o gigante, debochado.

Aninha se afasta aliviada, mas vai até a porta indicada, para não despertar suspeitas. Trata-se de um pequeno cômodo com duas poltronas de veludo que dá acesso a dois banheiros muito luxuosos. Aninha espera e uma das portas se abre. Para surpresa sua, Mirela, a gerente da agência Happy Hour, é quem sai.
– Mirela! Ainda bem que é você. Me explique o que está acontecendo aqui.
– Que cara é essa, Ana? Não está acontecendo nada.
– Nada? Primeiro: estou sendo vigiada por um gorila. Segundo: cada vez que um modelo sai da sala, um convidado sai atrás.
– Ah, isso? Ana, você não vai se fazer de inocente, não é? Para cima de mim?!
– Está legal, tudo bem, os modelos estão fazendo programa com os clientes, até aí passa. Mas por que é que eu estou sendo vigiada de perto?
– Que negócio é esse de ser vigiada? Não sei de nada disso.
– O Norberto me trouxe aqui, me apresentou a vários convidados, ficou comigo um tempo e de repente, saiu dizendo que ia lá para cima me deixando com um tal de Belisário que está me vigiando.
– Ah, o Beli? Beli é gente boa. Pense que ele está com você para realizar seus desejos.
– E se eu disser que o meu desejo é ir embora?
– Ah, aí vai pegar mal, amor. Você não quer ser indelicada com o Norberto, não é?
– Mirela, você não me conhece. Se você não me explicar o que está acontecendo aqui, vou botar a boca no mundo e essa festa vai terminar muito, muito mal!
– Espera aqui que eu já volto, Ana.

Mirela sai do pequeno cômodo e vai falar com o tal Belisário que está postado do lado de fora. Momentos depois, ela volta, leva Ana para um dos banheiros e tranca a porta.
– Ana, eu fui autorizada a explicar parte da coisa a você.
– Então pode começar a falar.

Mirela então explica que aquele andar da cobertura é dedicado aos "presentes" que a agência faz aos seus melhores clientes e que, é claro, na maioria das vezes, trata-se de sexo. Mas tudo se passa no maior sigilo porque essas pessoas são casadas, têm famílias, além de terem um nome a zelar porque são empresários, políticos ou celebridades, todos extremamente conhecidos e mediatizados sobretudo em São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Obviamente Mirela omite a informação crucial e reitera-lhe a necessidade de comportar-se como a "homenageada do dia".
– Sei. Isso quer dizer que esse andar aqui é como um motel.
– Não veja a coisa assim, Ana!
– Pois bem, se o Norberto quer continuar a contar comigo, eu quero saber tudo, senão vou pensar que alguma coisa de muito perversa está acontecendo com esses modelos. Não gosto de coisas escondidas; acho sinistro.
– Relaxa, amor! Você está dando importância demais a isso aqui. Eles são gente como todo mundo, só que não podem fazer essas coisas como todo mundo porque são visados demais, entendeu?
– Entendi, mas quero ver para ter certeza.
– Ai, ai, ai… Espera mais um pouco que eu já volto.

Mirela torna a sair do banheiro para falar com Belisário. Ele se mostra descontente, irritado, mas finalmente consente em permitir que Ana veja o interior do apartamento. Os três saem do salão pela porta por onde Ana viu saírem os modelos "leiloados", que dá acesso a um longo corredor com uma dúzia de portas que se estendem à esquerda e à direita. Eles tomam a esquerda e caminham até o final, entrando por uma porta que se abre com um código numérico. No interior, há um homem sentado diante de um sofisticado console de gravação, observando diante de si uma dezena de monitores que exibem o que se passa em cada cômodo do apartamento, especialmente em dez suites amplas e luxuosamente decoradas.
– Por que é que vocês filmam isso? pergunta Aninha, estupefata com o que vê nas telas de altíssima definição.
– Isso é confidencial, responde o Belisário, excitado, sem saber para que cena olhar.
– Olha aquele ali, Beli! chama o técnico, apontando para um dos monitores em que se vê um homem de cerca de sessenta anos, quase obeso, montado num jovem cabeludo e frágil quarenta anos mais novo.
– Ah se a mulher dele soubesse! responde o segurança careca rindo, agora descontraído.

Aninha olha em silêncio para a parede de monitores que mostram dez pares de pessoas em diversas atitudes sexuais. Toda aquela parafernália dedicada à espionagem a assusta e enoja.
– E o que vocês vão fazer com essas gravações?
– Nada, amor. É só por precaução mesmo, responde-lhe Mirela com o mesmo tom vulgar e condescendente.
– Pois para mim, isso não serve. Uma coisa é receber os modelos na loja para fazer propaganda da agência; outra coisa é saber que eles servem de escravos sexuais nessas festinhas de bacana. Eu quero ir embora daqui, e agora!
– Querer não é poder, Ana, diz Mirela voltando-se para ela com ar sério.
– Ah é? Vamos ver!

Ana corre até a porta, mas logo a descobre trancada. Belisário vai até ela, dá-lhe um fortíssimo tapa no rosto e a ampara nos braços, desacordada. Ao despertar, ela se descobre deitada na cama king size de uma das suites que ela viu no estúdio de gravação. Ela está consciente, mas sente-se entorpecida, como se só pudesse agir e pensar em câmera lenta. Ela vê Belisário ao pé da cama, Norberto sentado ao seu lado e ouve vagamente ressoar como em eco o que lhe parece ser um chuveiro aberto no banheiro.

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