2. Um nome
Minha cidade espanhola
fervilhava de turistas. As praias, onde um nudismo parcial é tradicionalmente
praticado e até estimulado, só eram convidativas até às onze horas da manhã ou
no final da tarde, por causa da multidão e do calor. Durante alguns dias, tomei
meu café da manhã bem cedo e fui passar uma ou duas horas tomando um sol
saudável, moderado pela brisa fresca, ler romances em espanhol e observar o
comportamento dos frequentadores. Constatei que as mulheres jovens e bonitas,
de seios e bundas firmes e bem feitos, iam maciçamente praticar o topless nessa
praia específica e, ao contrário do que eu supunha, que os homens as olhavam
bastante e tinham as mais diversas reações diante dessa exposição de belos
corpos bronzeados. Isso me permitiu tirar certas conclusões.
Quanto mais jovem o macho,
menos capaz de ocultar seus impulsos. Os adolescentes têm ereções que por vezes
parecem incomodá-los, levando-os a ocultá-las com as mãos, deitando-se de
bruços ou entrando n'água. Passados os vinte anos, uma incipiente censura
social obriga o jovem a uma certa compostura e ele sabe prevenir para não ter
que remediar, intercalando olhadas furtivas à distração com os amigos. Depois
dos trinta, o homem já domina todos os artifícios que o permitam não ser
surpreendido a olhar, mas o observador atento e paciente é perfeitamente capaz
de detectar qualquer manobra empreendida pelos voyeurs inveterados. Os
cinquentões e sessentões permitem-se olhar explicitamente sem sentir-se vítimas
dos caprichos involuntários do corpo, que eles já controlam à perfeição. E os
bem mais velhos parecem não mais dar a mínima importância a essas formas
humanas por vezes deíficas; seu tempo passou e eles lêem jornal, repousam,
dormem, molham os pés na água, assistem os netos brincando na areia, etc. Quanto
às mulheres, sua faixa de exibicionismo parece situar-se entre os sweet
sixteen e os trinta e poucos, sobretudo apoiada na beleza do corpo, que
lhes dá a auto-afirmação de que necessitam para enfrentar o implacável
julgamento da gens masculina. A praia é meu lugar preferido para examinar
os corpos de ambos os gêneros. As proporções do corpo humano me interessam
muito e estou constantemente em busca daquelas que tornam alguém realmente
atraente. Lembrando-me de Teresa e de suas proporções incomparáveis às de
noventa e nove por cento das pessoas que eu via na praia, conscientizei-me mais
uma vez do quanto é difícil encontrar um ser humano com um corpo realmente
digno de contemplação.
Fui à praia nos três dias
que se seguiram à descoberta dessa pepita rara que batizei de Teresa. Em
seguida choveu e, numa manhã ainda cinzenta, um evento inesperado veio temperar
a nova rotina. Por volta das nove horas, entrei num café que me agradou pela
paz e pedi minhas tostadas com manteiga, geléia e café preto. Em
viagem, prefiro observar as pessoas do que ler, mas naquele dia,
excepcionalmente, comprei um jornal com o intuito de me informar um pouco sobre
o que não se vê nas ruas. A Espanha está em plena crise, o desemprego é
colossal, os preços de certas coisas desabam em consequência, e o adágio de que
o infortúnio de uns faz a felicidade de outros é inegável. Já fazia alguns anos
que eu acalentava o desejo de comprar um imóvel antigo, de uns três andares,
sótão e porão, para transformar em pequeno hotel bed & breakfast,
sendo assim, apliquei-me à leitura minuciosa do meu jornal de cidade-balneário.
Mas antes do terceiro classificado...
— Hola!
Fui interrompido por uma voz
feminina. A entonação me soou estranha, como carregada de um traço de
condescendência, mas não sei bem como exprimir o que percebi antes mesmo de
baixar meu jornal. Sei que reconheci o timbre de Teresa e não fui capaz de
ocultar meu contentamento. Ela estava de pé ao meu lado, as coxas coladas ao
tampo da mesa, descobertas até à barra de uma saia curtíssima. Meu olhar
naturalmente viajou das coxas aos seios e deles às coxas antes de conseguir ir
atabalhoadamente fixar-se nas negras íris da linda espanholinha.
— Você por aqui? perguntou ela, toda sorrisos.
— Pois é, me acostumei com o lugar. Veja que paz!
— Ah! Então eu não vou
incom...
Sua reticência não poderia
ter sido mais eloqüente. Sem perder a deixa, convidei-a a sentar-se e tomar
café comigo, para não perdê-la. Vi suas coxas descolarem-se da borda metálica
do tampo de vidro e acompanhei-as até vê-las fechando-se num reflexo assim que
Teresa, já sentada à minha frente, se deu conta da transparência da mesa. Quando
eu lhe disse para ficar à vontade, argumentando que isso só amplificaria o meu
prazer de ter sua companhia, ela respondeu com um risinho e, de fato, instantes
depois, percebi que suas pernas se entreabriram, deixando-me vislumbrar vez por
outra uma imaculada calcinha branca. Ela me pareceu mais madura, sem a presença
familiar dos clientes habituais do café onde ela comprava tortilhas.
— Se espantou porque eu reconheci você?
— Confesso que sim!
— Você me olhou tanto, naquele dia!
— Você estava provocante, retruquei, ousado.
— Eu?! exclamou ela,
surpresa. Mas só fui comprar tortilhas como todo dia!
— Você se olha no espelho antes de sair, menina? perguntei com afeição.
— Você diz isso por causa das roupas que eu uso? retrucou ela olhando
para baixo e alisando a sainha sobre as coxas. Será que sou a única que usa shorts ou saias curtos? De onde você é? Seu
sotaque espanhol me parece sul-americano; seus zês são sibilados.
— Bom, vamos recomeçar do zero. Que
tal você me dizer seu nome? perguntei, para mudar o rumo da conversa.
— Isabel, respondeu ela, menos afável.
— Isabel? Muito um prazer,
Isabel. Meu nome é Marcos, respondi, sem dar a perceber que meu sorriso se
devia ao fato de que a Teresa das minhas fantasias acabara de evaporar-se. Meu
nome é Marcos e moro no Rio de Janeiro.
— Ah! Brasileiro?
— Mm-hm.
Logo percebi que seus
conhecimentos sobre o Gigante Adormecido se limitavam a localizar a cidade no
país, mas minha resposta surtiu bom efeito e pudemos prosseguir sem
animosidade. Enquanto conversávamos, eu dava um jeito de observar discretamente
o movimento das pernas de Isabel através do tampo de vidro. Mais tranquila, ela
logo reassumiu sua negligência juvenil, encantando-me com a visão das
magníficas coxas alargadas pela compressão no assento e agraciando-me
com flashes ocasionais da calcinha branca perfeitamente ajustada ao
sexo. Alheia ao fato, Isabel saboreava sua tortlha com suco de laranja
contando-me um pouco da sua rotina tranquila de jovem espanhola: família,
estudos, férias, namoro, trabalho, lazer, lazer, lazer. Como quê, o
desenvolvimento suprime realmente obstáculos, concluí mais uma vez, olhando-a
nos olhos sem causar-lhe o menor embaraço. Tomamos café sem pressa, até que as
nuvens deram lugar a uma bela manhã de céu azul. Em sinal de reconciliação,
Isabel admitiu estar à toa e propôs ciceronear-me. Paguei, deixei alguns euros
na mesa e saímos nos despedindo da jovem garçonete que acenou gentilmente da
porta enquanto nos afastávamos. Eu estava entusiasmado com a minha companhia e
todo prosa de ser visto com ela por toda a gente, principalmente pelos rapazes,
alguns dos quais a olhavam com ar interrogativo.

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