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Erotexto é um blogue dedicado ao erotismo que tem por característica uma rica diversidade de estruturas narrativas. Seu objetivo é triplo: entreter, desenvolver o interesse pela escritura e - o principal - motivar a reflexão sobre a libido e a busca do prazer, cujo fundamento biológico acredito ser de caráter essencial e universalmente bissexual.

Erotexto tem formato fixo. A primeira página comporta a última narrativa proposta (não necessariamente a última criação). O material arquivado consiste de contos e relatos classificados por categoria sob a rubrica "EroStock" (coluna à direita), bem como séries, novelas e folhetins. Para conhecer a acepção em que cada estrutura narrativa foi tomada, convido o leitor a clicar em "Pequena Teoria da Narrativa", aqui acima.

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Marc Fauwel

Em Xeque

Dos dez aos dezoito anos, eu tive um melhor amigo. Ele se chamava Alexandre. Nós éramos da mesma turma e tínhamos um ano de diferença de idade - eu era o mais velho. Eu gostava de esportes individuais, ele de equipe; eu gostava de solidão, ele de viver cercado de gente; eu gostava de louras, ele de morenas; eu era baixo, ele alto. Essas oposições não nos afastavam nem nos aproximavam, mas nós vivíamos juntos, eu principalmente enfurnado na casa dele. Não éramos de modo algum homossexuais, mas um dia, um dia só e uma vez só, fomos confrontados a uma situação inesperada para ambos.

Alexandre era menos tímido que eu. Ele não se inibia de tirar toda a roupa para ir tomar banho ou de voltar do banho para o quarto só de toalha e se vestir na minha frente. Eu geralmente estava sentado na cama e nós conversávamos enquanto ele se vestia ou despia. Ele era brincalhão, irreverente e tinha muita autoconfiança no que dizia respeito ao seu próprio corpo e à sua masculinidade. Ele se achava bonito, sabia, por exemplo, que tinha um pênis de tamanho privilegiado e que, embora ainda não tivesse começado a usá-lo, quando começasse, dizia ele, faria um "estrago". O que me chamava atenção no Alexandre era a total ausência de pelos no rosto, braços e pernas. Sem que ele soubesse, isso me excitava um pouco, sobretudo a bela curvatura das costas e a bunda branca e lisa, curta mas bem carnuda. Quando ele mudava de roupa ou se enxugava, eu sempre dava um jeito de arriscar umas olhadas com toda discrição e sem a menor zombaria ou comentário de mau gosto.

Certo dia em que ele voltou do banho assim, apenas enrolado na toalha, enxugou-se e ficou lá, completamente nu diante do armário, olhando-se no espelho e escolhendo a roupa que ia usar depois. Como de costume, dei umas olhadas muito breves e discretas; eu morreria de vergonha de ser descoberto. Muitas vezes, eu guardava bem as imagens que tinha visto e chegando em casa, me masturbava recordando cada detalhe desse aspecto feminino que tanto me atraía no corpo do meu melhor amigo. Cheguei a me imaginar fazendo sexo com ele, penetrando-o através daquelas duas meias-luas de carne firme e lisa, mas sem qualquer esperança ou real projeto; era pura fantasia de adolescente. Quanto ao pênis do Alexandre, não me interessava em nada. Eu o via geralmente mole ou quase, claro e coberto pelo prepúcio, percebia que era bem maior que o meu e a dos meninos da mesma idade que eu via no vestiário da piscina, mas eu realmente não estava interessado nisso. Em cada "sessão" daquele meu voyeurismo tão discreto, eu dava uma olhada de relance na parte da frente, mas o que me excitava e disparava a fantasia era a visão do Alexandre de costas. Naquele dia, portanto, como as vezes anteriores, concentrei-me exclusivamente no traseiro do meu amigo.

Ocorre, porém, que algo totalmente inesperado aconteceu. A certa altura, vejo o Alexandre se virar para mim completamente nu e vir na minha direção, parando a um palmo de mim, que estava sentado na cama. Pela primeira vez, ele queria me mostrar como o seu dote era grande, queria se exibir. Reagi como qualquer outro reagiria, repelindo a brincadeira e mandando-o tratar de terminar de mudar de roupa. Mas ele não saiu da minha frente e começou a me provocar, insistindo para que eu visse como era grande. Foi mais para me mostrar "diferente" que eu resolvi olhar. Vencendo a resistência,olhei francamente para o sexo do meu amigo e disse que sim, que era grande, e o mandei continuar a mudar de roupa. Mas ele não saiu do lugar, ficou de pé na minha frente, de pernas abertas, com o sexo à altura da minha cabeça. Eu não queria tocá-lo e não queria me afastar para não me mostrar intimidado, mas a insistência começou a se tornar constrangedora. Me lembro de ter olhado para o rosto do Alexandre e descoberto um riso malicioso bem incomum. Numa fração de segundos, raciocinei que não tinha ninguém em casa, que eu já tinha visto meu amigo saindo do banho dezenas de vezes e que a nossa intimidade era total. Concluí que Alexandre estava querendo uma experiência, que ele estava me oferecendo seu sexo na esperança de obter uma felação.

Racionalmente, vi que havia dois obstáculos que me impediam de aceitar. Um deles era elementar, fisiológico: eu não me sentia nem um pouco tentado a segurar um pênis e muito menos introduzi-lo na boca pelo simples fato de que tinha nojo dos fluidos e odores. O outro obstáculo vinha depois deste. Se eu vencesse o primeiro obstáculo e topasse a felação, me tornaria outra pessoa para o meu melhor amigo. Nenhum receio me ocorreu de que ele pudesse me difamar junto ao nosso círculo de amigos, mas tremi diante da hipótese de me tornar homossexual aos olhos do meu melhor amigo. Foram milissegundos de longa angústia, enquanto eu via as duas coxas do Alexandre estáveis como pilares de mármore e, entre elas, o pênis longo e grosso, cheio mas apenas um pouco armado, oscilando a alguns dedos do meu nariz. Pude sentir o cheiro de sabonete que emanava do corpo ainda quente do banho recém-tomado. A decisão que eu estava sendo forçado a tomar graças a uma brincadeira inconseqüente estava longe de ser fútil e me expunha ao risco de definir minha sexualidade antes mesmo que eu tivesse tido minha primeira experiência sexual; seria ela a minha primeira experiência sexual! Me apavorava a idéia de que uma ação aparentemente tão banal pudesse estar tão carregada de futuro.

Ainda em milissegundos, tentei visualizar a pior das hipóteses. Bastava-me avançar a cabeça de alguns centímetros, abrir a boca e eu estaria com o sexo do meu amigo na boca. Mas nesse momento, ainda dentro desses poucos milissegundos, me ocorreu que tudo pudesse não passar de um enorme malentendido da minha parte e que nada estivesse mais distante das intenções do Alexandre que a experiência de uma felação homossexual comigo. Eu podia estar redondamente enganado e a ponto de fazer a maior besteira da minha vida, optando na hora imprópria por uma sexualidade que não era a minha. Resolvi banir temporariamente essa nova possibilidade e voltei à hipótese primitiva, que pressupunha que o Alexandre estivesse me sugerindo uma felação. Se fosse esse o caso, eu receberia seu sexo na boca e este logo começaria a crescer e endurecer dentro dela. Eu teria que fazer como nos filmes, porque uma felação é como um ato sexual oral e o Alexandre certamente esperaria auferir da experiência o mais intenso prazer possível. Pude me ver "de fora", como se eu estivesse de pé no quarto vendo a cena por trás. Me vi sentado de pernas abertas na cama baixa, com a cabeça avançada e a boca desmesuradamente aberta enquanto o Alexandre, completamente nu, oscilava para frente e para trás, penetrando-me na boca com seu pênis enorme e gemendo de prazer, sem contudo me tocar. A cena me repugnava e me senti pronto a recusar imediatamente o convite.

Mas outra possibildade se apresentou à minha mente, dentro dos mesmos brevíssimos milissegundos que eu tinha para tomar a mais importante decisão da minha vida: e se o Alexandre começasse a me dizer coisas, isto é, de certo modo também se revelasse outro? E se ele me dissesse que esperava por aquele momento há muito tempo, que eu o excitava e que ele queria ter essa experiência e outras comigo? Era uma possibilidade a não descartar, já que tínhamos tanta intimidade. Vendo-nos novamente "de fora", eu o via então com as mãos emaranhadas no meu cabelo, numa atitude oposta à da rejeição do corpo que eu supusera na primeira possibilidade. Isso indubitavelmente tornava a situação mais atraente, mas como atribuir mais peso a esta ou àquela possibilidade? Eu estava mergulhado na mais profunda e legítima indecisão que a minha vida me propusera até então.

Indo mais além na consideração das hipóteses, comecei a imaginar a  culminância de toda felação - o orgasmo. Como haveria de ser na hora do orgasmo? O Alexandre me previniria ou não?  Eu receberia seus jatos de esperma em plena boca ou no rosto, ou ele retiraria seu pênis e ejacularia na mão ou em seu próprio corpo? O que fazer com a boca cheia de esperma? Correr para o banheiro? Cuspir ali mesmo? Engolir? Minha ignorância das coisas homossexuais ao mesmo tempo que me aliviava, me consternava. Os milissegundos iam passando, eu não conseguia tomar a decisão mais importante da minha vida e o Alexandre continuava na minha frente, oferecendo-me seu sexo.

Por mais exasperador que fosse, eu não conseguia evitar que a minha mente tentasse ir adiante. Sozinha, ela me induziu a indagar como seria depois da felação, e aqui a questão era: será que aquele que pratica a felação é sempre o passivo? A dúvida era de importância crucial, já que eu sempre tivera fantasias em relação ao Alexandre e nelas eu era ativo. Eu não via bem como, depois de praticar uma felação no meu amigo, pedir-lhe que me deixasse penetrá-lo. Parecia uma troca desequilibrada; uma felação parece valer menos que uma penetração. Por outro lado, saciado pelo orgasmo, ele poderia topar ser penetrado, o que muito me surpreenderia, mas talvez não tivesse nada de surpreendente em si. O fato é que eu me enredei em mais essa dúvida antes mesmo de aceitar o que me parecia ser um convite à felação. Tomado de revolta por ter essa mente desembestada, resolvi parar de conjeturar e agir com base em elementos mais concretos.

A primeira coisa que decidi fazer foi olhar para o Alexandre, olhá-lo bem nos olhos, perscrutadoramente. Ele continuava lá, com aquela expressão de malícia aparentemente diabólica, mas eu queria ir além dessa expressão para desvelar suas reais intenções e desejos. Minha decisão foi acertada. A expressão diabólica não se mantinha continuamente a mesma, mas alternava-se com outra, que eu poderia qualificar de expressão de "esperança". Em frações de milissegundos, consegui captar microalternâncias de expressões que me davam a certeza de que o Alexandre tinha essa esperança de que eu aceitasse e que, portanto, aquilo era, sim, uma proposta real e sincera de felação. Tudo estava no olhar. O sorriso se mantinha fixo, mas o olhar se modificava ligeiramente, durante frações de milissegundos, depois voltava a completar o sorriso diabólico. A natureza da minha decisão acabava de mudar. Tratava-se agora de decidir se eu satisfaria ou não o desejo sexual do meu melhor amigo e, portanto, a dificuldade voltava a ser a de administrar o fato de que eu mudaria aos olhos dele, isto é, passaria a ser visto por ele como homo ou bissexual. Para simplificar, resolvi adiar sine die a questão de saber se eu mesmo continuaria por esse caminho.

De posse da certeza de que meu amigo desejava a felação, me faltava ainda a convicção de que eu podia contrapropor o sexo anal. A felação + ejaculação no rosto ou na boca me parecia mais justa. Eu não podia mais esperar, meus milissegundos estavam esgotados.
- Eu topo e deixo você gozar em mim se você me der.

A expressão diabólica se transformou em espanto bestificado. Os pilares de mármore balançaram, o sorriso se tornou incrédulo e pude ver o rubor invadir o rosto do meu melhor amigo, que, pela primeira vez comigo, ficou sem fala.
- Se você me deixar te comer, eu chupo e ainda deixo você gozar onde quiser, repeti, mais extensamente.

O cenho do Alexandre franziu-se e percebi que era a vez dele de decidir em milissegundos. Senti um esboço de alívio diante do sexo antes tão ameaçador. Embora sentado, a posição de domínio era minha, porque não havia dúvida de que, para um heterossexual, a decisão de ser penetrado é muito mais dramática. Senti-me na pele de um enxadrista a quem sobraram poucas peças, mas que acaba de sair de um xeque com uma jogada que deixou seu adversário num xeque ainda mais intricado.
- Sem chance! Não sou viado, você sabe disso!

Alexandre preferiu derrubar o rei a sair do xeque. Desestabilizado, ele deu um passo atrás e desmantelou a situação de jogo. Continuei olhando para ele, mas agora era dos meus lábios que saia o risinho diabólico. Chegamos muito perto de uma experiência homossexual, tão perto que nossa relação de amizade, acrescida da consciência que nós adquirimos sobre os desejos de um em relação ao outro, evoluiu muito. O fim da adolescência veio pôr fim a esses jogos, mas cada um de nós sempre saberá que o outro teria sido o homem com quem ele teria realizado suas fantasias mais recônditas.

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