Seja bem-vindo!

Caro Visitante,

Erotexto é um blogue dedicado ao erotismo que tem por característica uma rica diversidade de estruturas narrativas. Seu objetivo é triplo: entreter, desenvolver o interesse pela escritura e - o principal - motivar a reflexão sobre a libido e a busca do prazer, cujo fundamento biológico acredito ser de caráter essencial e universalmente bissexual.

Erotexto tem formato fixo. A primeira página comporta a última narrativa proposta (não necessariamente a última criação). O material arquivado consiste de contos e relatos classificados por categoria sob a rubrica "EroStock" (coluna à direita), bem como séries, novelas e folhetins. Para conhecer a acepção em que cada estrutura narrativa foi tomada, convido o leitor a clicar em "Pequena Teoria da Narrativa", aqui acima.

Uma comunicação contínua com o leitor faz-se através da rubrica "EroNovas", a primeira da coluna à direita. Meu e-mail está à sua disposição. Para reagir a uma publicação, clique na palavra "comentário", abaixo de cada texto.

Os botões "Índice" e "Resumos" propiciam acesso fácil aos textos e uma visão global do conteúdo do blogue.

Que Erotexto possa excitar de modo agradável, são e prazeroso, inspirar o leitor a escrever suas próprias histórias e principalmente, motivar a reflexão.

Marc Fauwel

Paixão de Caserna

Nos meus tempos de serviço militar, que cumpri num centro de formação de oficiais da reserva da Infantaria, fui parar, assim que promovido a aspirante, no comando de um dos três pelotões de uma companhia. Eu era encarregado da ordem-unida, da aula de ginástica diária, de levar o pelotão marchando de um lado para outro do enorme pátio interno do quartel, de supervisionar o banho, o rancho, a guarda, e de outras tantas tarefas enfadonhas que não me exigiam qualquer esforço neuronal, mas que exauriam-me a tal ponto que acabei preferindo passar a dormir no batalhão.

Por ironia do destino, assim que comuniquei minha decisão aos superiores, recebi nova tarefa: supervisionar o dormitório do pelotão. Eu deveria ter adivinhado, mas surpreso ou não, no início da segunda noite, lá estava eu, percorrendo as fileiras de beliches. A tarefa logo me pareceu inútil; os soldados tinham tanto medo de ir para o xadrez que seu comportamento noturno era impecável. Sendo assim, em vez de passar toda a primeira hora com eles, comecei a dar umas "incertas", inicialmente diárias, em seguida mais esparsas, até limitar-me a fechar a porta e apagar as luzes antes de ir dormir no meu quarto que, embora sem ligação com o dormitório, ficava no cômodo ao lado.

Certa noite, eu já estava dormindo quando alguém bateu à porta. Era o R., um dos soldados do meu pelotão, insistindo para falar comigo. Impaciente, eu quis despachá-lo autoritariamente, mas ele insistiu alegando ser muito grave. Acabei deixando-o entrar e pedi-lhe que falasse o mais baixo possível. Ele começou, um tanto sem jeito, a explicar-me que o pelotão era dividido entre uma minoria que mandava e uma maioria que obedecia e que, em determinadas noites, um soldado era sorteado para ser currado pelos outros. O escolhido era obrigado a se levantar imediatamente, ir lavar-se muito bem e voltar para deixar-se penetrar por vários soldados. Se houvesse o menor sinal de descuido higiênico, o escolhido estaria condenado até o dia da baixa. Nos casos mais graves, tomavam-lhe até o soldo. As ameaças eram tão sérias, acrescentou R., que tudo se passava no maior silêncio e no dia seguinte ninguém tocava no assunto. Ele terminou suplicando-me que pensasse numa solução. Estarrecido, prometi tomar providências e o mandei de volta ao dormitório.

A primeira coisa que fiz foi conversar com um sargento antigo com quem eu me entendia muito bem. Assim que ouviu a história, ele recomendou-me cautela, arguindo que os soldados eram capazes de arquitetar artimanhas inimagináveis e que ele já tinha visto de tudo naquele batalhão. Se eu fizesse escândalo, as próprias supostas vítimas negariam até a morte, por medo de represálias que poderiam se estender até suas famílias, fora do quartel. Mesmo que eu conseguisse pegá-los em flagrante, ninguém revelaria a verdade e tudo seria reduzido a um caso banal de homossexualismo de caserna, velho como Esparta. Agradeci o meu amigo e voltei às minhas atividades, sem deixar de procurar constantemente uma solução. No dia-a-dia, entretanto, quando o meu olhar cruzava o do R., eu não percebia mais agonia e súplica, mas parecia-me que ele queria dizer-me alguma coisa. Ele não me procurou mais, mas isso não me convenceu a desistir de continuar investigando.

A tática que resolvi usar foi a de voltar a dar as minhas "incertas" no dormitório do pelotão. E não só isso, mas, num esforço sobre-humano, em qualquer momento da noite! Fosse às 21h, às 3h30 da madrugada ou meia hora antes do toque da alvorada, eu abria silenciosamente a porta e esquadrinhava com o olhar toda a extensão do dormitório, por cima dos beliches, entre eles e por baixo deles. As semanas se passavam e R. me dizia que nada tinha mudado. Mas eu não conseguia pegá-los em flagrante. Era como se eles tivessem sido prevenidos por algum espião. Fui ficando com os nervos à flor da pele por não poder revelar a ninguém uma trama tão grave.

Numa tarde de terça-feira, mais de dois meses depois da conversa com o R., entrei no dormitório do pelotão para inspecionar o banheiro numa hora diferente da habitual. Eu costumava fazer isso depois que eles saíam para a primeira instrução da tarde, mas, não me lembro mais por quê, naquele dia resolvi fazer a inspeção em pleno horário do almoço deles, quando estivessem supostamente todos no rancho. Não havia ninguém nos beliches, mas ouvi cochichos e ruídos no banheiro. Este consistia de um amplo cômodo aberto destinado aos chuveiros e pias e dez reservados fechados com meias-portas. Ao chegar, deparei com cinco soldados nus, dois dos quais fizeram sinal aos demais, que tentaram sair do banheiro, mas foram impedidos por mim, que já obstruíra a entrada (não havia porta) com o meu corpo. Simultaneamente, num canto à minha direita, dois outros, que eu vira de relance, levantavam-se, um deles tantando atabalhoadamente encobrir o membro ainda ereto. O outro era R.
- O que é que está acontecendo aqui? gritei. Ninguém sai até que eu entenda tudo, do início ao fim! Eu estava furioso e mais do que impaciente para que aquilo terminasse.
- Nada, aspirante! A putinha do R. tava no cio hoje, e como a galera tá a perigo, "sacumé", né! disparou um soldado em tom extremamente grosseiro, sendo interrompido pelas gargalhadas boçais dos demais.

Olhei para o R. que, para espanto meu, pareceu-me mais encabulado que violentado. Ele se sentara de pernas cruzadas e estava de cabeça baixa, brincando com as mãos, mas eu podia perceber que havia um sorriso em seu rosto, um sorriso nervoso, como um esgar que ele não conseguia apagar para ser capaz de olhar para mim seriamente. A explicação veio-me instantaneamente: ele fora até o meu quarto naquele dia, há quase dois meses, com o intuito de tentar – antes que qualquer suspeita pairasse contra ele – desviar minha atenção do fato de que ele era verdadeiramente a "putinha" do grupo. Resolvi tratar o caso com rigor, lembrando-me que uma boa punição exemplar pode ser salutar para um grupo. Ordenei aos demais que não o difamassem no quartel e o mandei para o xadrez por insubordinação e não por conduta imoral. Mal sabia eu que aquela decisão viria mudar o rumo da minha vida.

Menos de 48 horas depois do encarceramento do soldado R., lá estava eu, no corpo da guarda, fazendo uma primeira visita para assegurar-me do seu bem-estar. Assim que me viu, ele olhou-me com um olhar cheio de tormento e vergonha, mas nenhuma hostilidade, amargura ou ressentimento. Eu já sabia que ele agira por pura vergonha de ser denunciado por algum dos soldados como gay passivo e compulsivo, e isso parecia tê-lo serenado um pouco. Durante essa primeira conversa, ele foi inteiramente sincero e confessou-me que assim que venceu o pavor de descobrir que não escaparia do serviço militar, começou reprogramar a mente, sonhando com as inúmeras possibilidades de satisfazer seus impulsos. Antes mesmo do processo seletivo, ele imaginava-se sendo possuído por montes de soldados másculos e bem-dotados em todas as situações e posições possíveis e imagináveis. Ele confidenciou-me que foi levado a praticar o sexo desde muito cedo e que sempre tivera uma atração exclusiva e intensa por homens. Retruquei, brincando, que entendia perfeitamente, mas que essa prática era terminantemente proibida nas forças armadas porque o Estado-Maior acreditava que, caso fosse estimulada, as casernas se tornariam um reduto de homossexuais e, contradizendo a bela história do "pelotão dos amantes", da Grécia antiga, declaravam veementemente que com homossexuais não se faz um exército. Ele riu, mas demonstrou ter perfeito entendimento do nosso estado de atraso social. Naquele primeiro dia de visita, conversamos por quase duas horas e não senti o tempo passar. Quando não pude mais adiar o momento de ir embora, R. pediu-me que voltasse no dia seguinte.

Era um sábado e eu estava dispensado de serviço, mas fui ao batalhão exclusivamente para vê-lo. Naquele fim de semana, R. era o único no xadrez. Eu conseguira fazer com que os soldados do pelotão não espalhassem nada sobre ele e sua presença na prisão do corpo da guarda não suscitou, portanto, maior curiosidade; ele passou por mais um soldado insubordinado dentre os tantos que frequentavam o recinto. Quando cheguei à cela, R. me pareceu mais do que feliz. Havia nele alguma coisa que o transfigurava, tornando seus olhos mais brilhantes e seu olhar mais claro e penetrante. Assim que entrei, sem bem interpretar essa impressão, senti-me recebido por uma amante ávida; é a analogia que me ocorre atualmente. O dia estava quentíssimo e R. estava usando o short azul e a camiseta branca sem mangas destinados à educação física. Não pude deixar de reparar suas pernas completamente lisas e as coxas femininas. Ele era magro sem ser franzino e, das duas ou três vezes que encontrou um pretexto para dar-me as costas ou curvar-se, pude adivinhar suas nádegas, cujo peso devia formar as duas dobras acentuadas que surgiam das bocas escancaradas do short a cada vez que ele sentava-se de pernas recolhidas no catre da cela.

Quando certificou-se de que eu tinha reparado em seu corpo, R. sentou-se quase colado a mim, com a cabeça a poucos centímetros da minha, o que não interpretei como atitude de desafio, mas de aproximação, desejo de intimidade. Eu queria que ele falasse, contasse a sua vida, se abrisse sobre seus problemas e dificuldade, mas ele me olhava tão profundamente nos olhos que me senti constrangido. Tentei afastar-me um pouco, mas ele se aproximava e olhava-me com seus olhos tristes de um verde-acinzentado indescritível. Quando tentei levantar-me, senti sua mão deslizar pela minha coxa. Tentei frear essa mão, mas ela apertou a minha com fervor e aquele olhar se tornou suplicante. Eu não tinha o que dizer e não queria enveredar por essa via em plena caserna, embora saiba hoje que àquela altura, eu já estava muito balançado por toda a situação. Consegui ir embora "incólume" no primeiro dia, mas intimamente sabia que estava indo contra a minha natureza mais instintiva.

É quase desnecessário dizer que voltei ao batalhão no dia seguinte, domingo. Assim que o soldado carcereiro nos deixou a sós na cela, R. se aproximou, afagou-me o cabelo sorrindo gentilmente, tocou minha mão, olhou-me profundamente nos olhos e ficou hesitante, esperando. Pela primeira vez, parei para olhá-lo com vontade de vê-lo, de descobrir aquela beleza andrógina de olhos felinos. Ele era muito claro, tinha traços muito finos, assim como a pele, o cabelo, as sobrancelhas. O nariz curto e reto, os lábios vermelhos formando duas covinhas pouco acima de cada comisura, os dentes muito brancos e unidos, um queixo curto e harmonioso e a penugem tão juvenil na face ainda sem sinal de barba, tudo isso resultava num rosto quase feminino, não fosse o horrível corte militar do cabelo. Tentei imaginá-lo sem ele, e não precisei esforçar-me muito porque, como por telepatia, R. tirou uma carteira da gaveta da mesa e mostrou-me uma foto sua. Antes do serviço militar, ou seja, há poucos meses apenas, ele era um menino de dezessete anos com cabelo de ouro, comprido até a nuca. Mesmo em plena luta contra isso - nada estava resovido na minha cabeça, àquela época -, tive que reconhecer que ele era muito bonito e que vê-lo me causava um incontestável prazer estético. Quando R. fechou a carteira e a repôs na gaveta, voltou-se para mim com segurança redobrada, sorrindo alegremente por ter-se mostrado em seu semblante habitual não desfigurado pela imagem uniforme, pobre e desgraciosa da nossa soldadesca. Ele pareceu-me mais jovem e radiante, como se tivesse voltado a ser o menino do retrato.

Meu gesto de beijá-lo foi espontâneo e súbito, como que detendo o percurso do seu rosto. R. arregalou os olhos, articulou uma palavra, mas logo entregou-se e ficamos por alguns segundos assim, de lábios colados e línguas se amando, sentindo nossas mãos úmidas uma na outra. Cheguei a sentir lágrimas subirem aos olhos e o coração disparar: eu estava beijando a Beleza e sendo retribuído por ela! Não durou mais que alguns segundos, mas quando nos separaramos, senti que precisava daquele corpo como o meu precisava de ar. Ato contínuo, R. empurrou-me para trás até a cama, abriu minha calça, fez-me sentar, ajoelhou-se entre as minhas pernas e sem sequer olhar, abocanhou avidamente o meu sexo, dando um suspiro como se tivesse enfim podido recomeçar a viver, sugando com desejo, acariciando-me os antebraços e olhando-me fixamente com olhos sorridentes e serenos. Minha excitação era tamanha que senti o orgasmo vir assim que comecei a acariciar seu rosto. Ele o recebeu sem hesitar, engolindo e acariciando-me com boca até o fim da ereção. Tudo não durou mais do que dois ou três minutos. Logo estávamos abraçados e nos beijando longamente no meio da cela inundada do sol que entrava pelas grades da janela. Nada foi mais custoso e triste para mim do que a despedida, naquele dia, mas eu o veria de volta ao pelotão ao amanhecer, o que me animou um pouco. Ele parecia tolerar melhor situações como aquela, como se já houvesse passado várias vezes por privações dessa natureza. Eu o senti mais sereno que eu, mais pronto a esperar por uma nova ocasião de encontro. Fui embora desolado, obcecado pela idéia de fazer amor com ele por horas a fio. Mas a semana me reservava uma surpresa.

Ao passar pelo corpo da guarda, às 7h30 do dia seguinte, descobri que R. continuava encarcerado, mas não tive tempo de pensar nisso e muito menos de ir vê-lo; as manhãs de segunda eram as mais atarefadas da semana. Logo depois da formatura geral, fui chamado ao gabinete do capitão da minha companhia. Havia duas notícias para mim. A primeira era que aquela seria minha última semana no comando do pelotão que me havia sido designado. A segunda era que o caso do soldado R. chegara ao conhecimento dos os oficiais superiores, que o consideraram de alta gravidade e decidiram desligar R. antes mesmo que concluísse o serviço militar. O capitão me deu as duas notícias nessa ordem, laconicamente, agradecendo-me pelos serviços prestados e prevenindo-me de que seria transferido de pelotão. Saí do gabinete sentindo vertigem e fui para o meu quarto. Não me lembro de ter chorado tanto até aquela data, mas agora sei que aquela era apenas a primeira vez. Não sei como consegui dar conta das minhas tarefas finais na companhia, mas aos arrancões, cometendo inúmeras falhas, fui até o fim.

A semana me pareceu durar um mês, mas o sábado chegou enfim e, como eu seria remanejado na semana seguinte, fui poupado do serviço de fim de semana. Por volta das dez horas, eu estava no batalhão diante do sargento da guarda que me olhava com cara de espanto. Dei a desculpa de que precisava explicar algumas coisas a R. porque ia ser transferido do pelotão dele (era natural para um aspirante). Encontrei R. feliz por ver-me e com um moral relativamente alto, talvez por causa do tempo bom, mas intrigado com a demora em ser solto, ignorando tudo sobre seu desligamento. Resolvi que não revelaria nada. Nos beijamos com ardor e ele foi sentar-se na mesinha colada à parede, recostando-se a ela. Aproximei-me com a intenção de continuarmos a nos beijar e percebi que ele puxara a boca do short e deixara escapar o sexo já bem duro. Era bem feito, proporcional e nada repulsivo, envolto em seu estojo de pele clara e macia. Com as mãos pousadas em suas coxas senti-o pulsar em minha boca, e meu soldado-amante contorcer-se contendo gemidos.

R. já estava desligado das forças armadas e partiria dali para casa na manhã de segunda feira, mas se fôssemos descobertos, eu certamente enfrentaria um processo militar e a corte marcial. Fui portanto até o corpo da guarda para certificar-me de que ninguém tinha a intenção de entrar no corredor das celas. Quando voltei, deparei com R. já debruçado na mesa, olhando para mim, o short azul baixado até o meio das coxas. Meus sonhos tinham fundamento: perfeitamente lisas e de um branco imaculado, as nádegas que saltavam-me aos olhos eram as mais linda que eu já vira. Puxando para o lado uma delas com a mão, meu temerário soldado olhou-me e sussurrou: "É teu, aspirante!" Aproximando-me mais, separei levemente os dois gomos para expor, bem no meio do sulco, a pele um pouco mais escura com o orifício ligeiramente aberto dos que têm certo hábito, pulsando intensa e convidativamente. R. tornou, impaciente: "Mete, aspirante, anda!" empinando-se todo e chegando para trás para alcançar-me. Abri a calça e tirei meu sexo já todo duro e encharcado, enterrando-o profundamente em R. que abafou um gemido, jogando a cabeça para trás e soltando um longo "Ahhhh!"

Puxando-o pelo alto das coxas, inicei um vaivém rápido, evitando os impactos para não fazer barulho. De vez em quando eu o envolvia carinhosamente pela barriga para acariciar seus mamilos, beijar sua nuca, e podia então ouvir sua masturbação forte e constante. Pedi-lhe para não gozar ainda e tive meu próprio orgasmo dentro dele, muito intenso e copioso. Em seguida, pedi-lhe que voltasse a sentar-se na mesa, colhi seu membro e o chupei intensamente. Ele foi tão profuso quanto eu, senão mais. Com a boca inundada do seu nectar, procurei a sua e trocamos um beijo final cheio de gula enquanto eu o tornava a penetrá-lo de frente, forçando suas coxas contra o corpo. Embora mais completo, esse encontro também não durou muito. Enxuguei meu suor numa toalha, despedimo-nos com um beijo demorado, olhei uma última vez para o seu rosto de menino bonito e saí com o pensamento fixo na ocasião seguinte.

Não me lembro exatamente do motivo que impediu-me de ir vê-lo no dia seguinte, domingo, mas creio ter sido relacionado à minha família. Na formatura matinal da segunda-feira, a tropa foi informada pelo comandante da unidade de que o soldado R. M. Silva fora suspenso do serviço militar e desligado da unidade naquela manhã mesmo e por razões que não seriam divulgadas. Não pude evitar o choque. Acompanhei em silêncio, como as centenas de pares de olhos do resto da tropa, a saída do sinistro camburão do túnel do corpo da guarda e seu percurso em marcha lenta até o outro lado da cancela, onde R. foi deixado, fora dos muros do batalhão, símbolo do seu desligamento e do fim da responsabilidade do Exército por ele. Quando R. desembarcou, olhou para trás uma última vez e seguiu caminhando, as lágrimas desciam pelo meu rosto sem que eu sequer tentasse impedir. Naquele momento, nada mais me importava.

Tentei entrar em contato com R. no mesmo dia, mas foi inútil. Insisti como um desesperado nas semanas subsequentes, mas ele se limitava a dizer por telefone que não queria ver-me. Terminei meu serviço militar sem jamais conseguir encontrá-lo. Passei dois ou três anos sem ter notícias dele, até entrar por acaso em contato com um amigo seu e ficar sabendo que sua vida afetiva não fora prejudicada por aquele episódio do serviço militar, e que era uma vida repleta de encontros e desencontros como a vida de toda jovem pessoa de beleza excepcional. Depois perdi todo contato com quem quer que pudesse dar-me notícias suas. Bem mais tarde, já maduro, eu viria a descobrir com tristeza que R. morrera aos 26 anos de idade, de pneumonia, provavelmente em conseqüência das devastações causadas pelo HIV. De R. trarei para sempre na lembrança o rosto resplandecente de beleza juvenil, os imensos olhos felinos e o ardor de uma paixão interrompida.




Nenhum comentário:

Postar um comentário

Eu gostaria de receber um parecer seu. Obrigado!