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Erotexto é um blogue dedicado ao erotismo que tem por característica uma rica diversidade de estruturas narrativas. Seu objetivo é triplo: entreter, desenvolver o interesse pela escritura e - o principal - motivar a reflexão sobre a libido e a busca do prazer, cujo fundamento biológico acredito ser de caráter essencial e universalmente bissexual.

Erotexto tem formato fixo. A primeira página comporta a última narrativa proposta (não necessariamente a última criação). O material arquivado consiste de contos e relatos classificados por categoria sob a rubrica "EroStock" (coluna à direita), bem como séries, novelas e folhetins. Para conhecer a acepção em que cada estrutura narrativa foi tomada, convido o leitor a clicar em "Pequena Teoria da Narrativa", aqui acima.

Uma comunicação contínua com o leitor faz-se através da rubrica "EroNovas", a primeira da coluna à direita. Meu e-mail está à sua disposição. Para reagir a uma publicação, clique na palavra "comentário", abaixo de cada texto.

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Que Erotexto possa excitar de modo agradável, são e prazeroso, inspirar o leitor a escrever suas próprias histórias e principalmente, motivar a reflexão.

Marc Fauwel

A Odisséia de Aninha (folhetim, episódio XVII)

17. Pequeno mundo

No caminho de casa, Aninha vem pensando que tudo seria perfeito, nesse seu período de transição empregatícia, se o "bocó" do Gabriel não estivesse acampado no seu apartamento. Seu descontentamento só é atenuado pela curiosidade de extrair dele informações sobre Stéphanie, sua futura patroa. Depois de ter dormido na casa dela, ele certamente sabe de alguma coisa que ela, Aninha, ignora.
- Acorda, preguiçoso! grita ela, entrando ruidosamente no apartamento às escuras e cheirando a homem.
- Hum? Grunhe  Gabriel, às voltas com uma tremenda ereção matinal, ainda aprisonado aos sonhos eróticos decorrentes da noite passada com Stéphanie.
- Para quem só carregou umas caixinhas e dormiu num apartamentão de gringo, você está muito cansado! Levanta, anda; isso não é hora de dormir.
- Mas eu dormi pouco, Aninha, juro! protesta ele, esfregando os olhos e encolhendo as pernas, constrangido.
- Sei. Pode tratar de arrumar esse sofá, abrir a janela e botar essas roupas no quarto. Vou te dar uma gaveta do armário.

Aninha diz isso passando como um tufão pela sala, indo diretamente ao quarto desocupar uma gaveta do guarda-roupa. Gabriel faz o que ela manda e ela vai até a sala verificar. Assim que ela se dá por satisfeita, volta ao quarto para tirar a roupa.
- Ai, preciso de um banho! Mas vai falando, Gabriel; vou deixar a porta só encostada, hein! avisa ela, entrando no banheiro negligentemente enrolada na toalha.

Como um bom menino, Gabriel conversa com ela encostado na parede oposta à porta do banheiro.
- E aí, pediu demissão?
- Pedi e fui dispensada hoje mesmo.
- Sortuda! O Tadeu me fez trabalhar um mês a mais.
- Você foi bobo; tem que saber negociar.
- Mulher consegue tudo mais fácil; é só jogar um charme que os caras babam e soltam tudo.
- Não é bem assim, não, Gabriel; às vezes tem que batalhar para conseguir.
- Vai dizer que você teve que batalhar?
- Gabriel, dá um tempo, vai! Acabei de chegare não estou a fim de ficar explicando as coisas não, grita ela, esquivando-se.
- Tá bom, tá bom!
- E aí, gostou do apartamento da francesa? Fica aonde?
- Sei lá, é um nome estranho, "Peroba" ou algo assim.
- Peró. Eu tenho um amigo que tem apartamento lá, na beirinha da praia.
- Esse é na beira da praia e é um apartamentaço. M'or salão com uma parede de janela dando para o mar. Pena que era de noite porque a vista deve ser maravilhosa.
- Mas parece que não é dela, não é?
- É de um amigo dela, mas ele vem pouco aqui. Parece que o irmão dele é que fica mais tempo lá, mas ele não estava.
- E onde é que ela te botou para dormir?
- Ê, fiquei num quarto super legal!
- Que mais? Ela falou alguma coisa de mim, do emprego?
- Ela falou que gostou de você de saída e do outro cara também...
- Rômulo.
- Isso, Rômulo.

Assim que a água do chuveiro cessa de cair, Gabriel vai para a sala e Aninha sai do banheiro. De lá, ele consegue ver que ela entra no quarto já se livrando da toalha, mas não consegue vê-la nua. Fiel aos seus hábitos e indiferente ao "culto" que Gabriel lhe presta, Aninha coloca um velho biquini de duas cores e vai para a cozinha providenciar um almoço. Gabriel conversa com ela encostado na bancada da pia, as mãos no bolso da bermuda. Cada vez que ela vai até a geladeira, a visão do corpo dos seus sonhos provoca-lhe uma pulsação na roupa, à qual ele responde com um puxãozinho por dentro do bolso para pôr o membro sobre a diagonal da virilha, posição que o faz senti-lo menos e o relaxa um pouco. O fato de que um simples biquíni seja suficiente para que uma mulher não se sinta nua sempre lhe causou espécie, e no entanto, as marcas dos bicos dos seios estão lá, impressas no sutiã, assim como o sombreado da fenda na calcinha tão justa. Sem falar da bunda, completamente descoberta! E Aninha parece sentir-se realmente segura em tão pouca roupa, conversando e olhando para ele sem o menor constrangimento. Gabriel evita o seu olhar e procura olhá-la apenas quando ela se concentra numa tarefa, fingindo uma naturalidade que está longe de ser possível para ele.
- Mas conta mais do apartamento. É legal mesmo?
- Ah, esqueci de te contar do banheiro!
- O que é que tem demais: torneira de ouro?
- Não, mas o chuveiro é estranhão, sai água da parede e do teto e é um tipo de passagem que vai da porta de serviço até um tipo de salinha que tem até poltrona e onde tem toalhas, roupão de banho, perfume e outras coisas. Ela me contou que é bom para quem vem da praia. Você entra cheio de sal e areia e sai vestido e perfumado para entrar em casa.

A descrição chama a atenção de Aninha.
- Estranho, já vi um banheiro assim, lá mesmo, no Peró. Fala mais. Ela disse algum nome?
- Não... Quer dizer, ela falou de um tal de Henrique, mas...
- Caraca! Não pode ser! Seria muita coincidência. Ela falou de algum Kleber?
- Não.
- Bia? Fernando?
- Também não.
- Continua, fala mais do apartamento.

E Gabriel começa a descrever o amplo salão com seus dois conjuntos estofados e os objetos da sala de estar, até que Aninha, pasma, não tem mais dúvida: trata-se do apartamento de Kleber.
- Cara, como o mundo é pequeno! Você não vai acreditar, mas eu sou amiga do dono desse apartamento.
- Fala sério!
- Juro! Você entrou na cozinha?
- Claro, a gente jantou na cozinha. A gente tomou até vinho!
- A geladeira parece um guarda-roupa prateado e tem até torneirinha na porta para pegar água gelada?
- Isso, ela era bem assim mesmo.
- A mesinha da sala, na frente do sofá da esquerda é de vidro e de cima dá para ver umas conchas esquisitas?
- Mm-hm, confirma Gabriel, ficando espantado.
- Tem um quadro enorme que parece um rabiscado colorido no salão?
- Tem, faz ele, decididamente convencido.
- Caraca, é o apartamento do Kleber, Gabriel!

Enquanto Aninha coloca feijão, arroz, bife  e um ovo sobre o arroz, nessa ordem, no prato  que ela passa a Gabriel, ela murmura numerosos "não pode ser", sem saber o que fazer dessa informação que, no entanto, lhe parece colossal. Em seguida, ela se serve e os dois vão comer na sala, segurando o prato.
- Quem é esse Kleber?
- O Kleber foi o primeiro cara que eu conheci aqui em Cabo Frio. Foi ele que me arrumou esse apartamento que eu racho com a Soraya. Ele é ricão. Paulista, mas mora no Rio; na Zona Sul, é claro.
- Claro, repete Gabriel, dando um risinho.
- Ele falou de uma "Ichtéfani" que ficava na casa dele, mas eu nunca imaginei que a francesa, minha nova patroa, fosse ela. Você não se engraçou com ela, não é, Gabriel? Não vai me fazer passar vexame, hein!
- Eu não! Mas por quê? emenda ele, desconversando. Por causa desse Kleber? Rola alguma coisa entre vocês?
- Ah, nem sei mais. A gente tem tipo um namoro, quando ele vem aqui, mas ele vem tão pouco! Gabriel, eu vou te dizer uma coisa, mas não conta nada à francesa, ok? Se ela souber, vai ficar estranha comigo, na loja.
- Fala, pede o rapaz, um tanto perturbado com o que acaba de ouvir sobre essa relação que ele ignorava.
- Eu fui várias vezes naquele apartamento, ja dormi lá e já transei com o Kleber até no tal banheiro de parede que esguicha.

Gabriel está mudo, olhando para o prato. Na verdade, essa coincidência não o ajuda em nada, porque ela e ele nunca estiveram tão afastados. Ele não tem o mínimo apego a Stéphanie, enquanto Aninha já tem uma namoro. Um mal-estar profundo se apossa dele, a ponto de tirar-lhe a fome.
- Acho que eu devia voltar para o Rio.
- Também acho, responde Aninha, prontamente. Aliás, não sei o que você veio fazer aqui, falando sério!

A hora é essa, pensa Gabriel. E sem perder o "timing"...
- Eu vim te ver, Ana, responde, ele, cravando-lhe os olhos nos olhos.

Aninha se levanta muda e se dirige para a cozinha, seguida pelo olhar de Gabriel que mais uma vez percorre o seu corpo e o deseja. Ele se levanta e a segue, indo deixar o prato sobre a pia enquanto ela começa a lavar a louça.
- Você não me conhece, Gabriel; só conhece o meu corpo e, mesmo assim, de longe. Aliás, eu nem sei por que é que eu deixei um cara que fica me espiando e tocando punheta escondido atrás da janela vir para a minha casa, diz ela num tom relaxado mas cheio de desprezo.
- Você queria que eu subisse na janela pelado?
- Não, cara, mas você me conhece há 18 anos e não aproveitou a chance de ter uma amiga. E você pode não ter subido na janela, mas subiu na escada pelado, que eu vi.

Se a cor de chocolate pudesse mudar, Gabriel teria revelado cromaticamente a sua vergonha. Ele se limita a baixar os olhos.
- É verdade, eu queria que você me visse.
- Te visse ou visse o teu pau?
- É, o pau.
- E precisava dar show para isso?
- Sei lá, Aninha, eu nunca consegui chegar em você. Você está sempre colada naquelas duas... piranhas.
- De quem você está falando? pergunta ela, zangada.
- Ah, a Leileane e a Sandra.
- Elas são minhas amigas.
- Duas putas, Ana; todo mundo comeu.
- Menos você.
- É, menos eu. Não achei meu corpo no lixo.
- Sei, preferiu ficar retardado.


Irritada, Aninha entrega uma panela ensaboada a Gabriel e sai da cozinha. Ele termina de lavar a louça sentindo-se tomado pelo cansaço físico e mental, em dúvida quanto a continuar hospedado lá como persona non grata. Minutos depois, ele ouve a porta de entrada bater e a chave rodar na fechadura; ela saiu. Não vai ser fácil consertar um chute que já saiu torto, pensa ele. Desanimado, ele decide voltar para o sofá e pelo menos repor o sono em dia.

Um comentário:

  1. Estou acompanhando a história da Aninha e gostando. Você escreve bem, faz jus ao que prometeu sobre o português brasileiro carioca e sabe escrever erotismo. Aguardo ansiosamente a continuação e, claro, outros folhetins.

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