Seja bem-vindo!

Caro Visitante,

Erotexto é um blogue dedicado ao erotismo que tem por característica uma rica diversidade de estruturas narrativas. Seu objetivo é triplo: entreter, desenvolver o interesse pela escritura e - o principal - motivar a reflexão sobre a libido e a busca do prazer, cujo fundamento biológico acredito ser de caráter essencial e universalmente bissexual.

Erotexto tem formato fixo. A primeira página comporta a última narrativa proposta (não necessariamente a última criação). O material arquivado consiste de contos e relatos classificados por categoria sob a rubrica "EroStock" (coluna à direita), bem como séries, novelas e folhetins. Para conhecer a acepção em que cada estrutura narrativa foi tomada, convido o leitor a clicar em "Pequena Teoria da Narrativa", aqui acima.

Uma comunicação contínua com o leitor faz-se através da rubrica "EroNovas", a primeira da coluna à direita. Meu e-mail está à sua disposição. Para reagir a uma publicação, clique na palavra "comentário", abaixo de cada texto.

Os botões "Índice" e "Resumos" propiciam acesso fácil aos textos e uma visão global do conteúdo do blogue.

Que Erotexto possa excitar de modo agradável, são e prazeroso, inspirar o leitor a escrever suas próprias histórias e principalmente, motivar a reflexão.

Marc Fauwel

A Odisséia de Aninha (folhetim, episódio XII)

12. Melancolia de Aniversário

- Gabriel? Que é que tá pegando?
- Nada, nada...

No dia dos seus dezoito anos, Gabriel está se sentindo esquisito sem a presença de Aninha no quintal, logo abaixo da janela do seu quarto. Desde que ela foi embora, um vazio se instalou em sua mente e aniquilou sua motivação para tudo. Ele sabe que ela está em Cabo Frio, poderia facilmente conseguir o endereço exato, mas não ousa ir atrás dela para confessar-lhe uma velha paixão jamais correspondida; ela faria aquela boca de desprezo e o mandaria de volta com um "Vê se cresce, cara!" Não, ela abriria a porta e o deixaria entrar um pouco para pedir notícias sobre a sua família e a vizinhança, retifica ele em pensamento, mas por puro interesse. Uma coisa é certa: vê-lo ou não vê-lo não lhe faria a menor diferença.
- "Prestenção", cara!
- Hm?

Moacir é o amigo de infância que se tornou o melhor amigo só porque não desgruda nem enxotando e porque suporta Gabriel em todas as gradações de humor. A família de Gabriel já nem o vê mais, considera-o parte da mobília. Ele entra sem bater e sai quando quer, fuça a geladeira e se serve do bolo coberto com pano de prato na mesa da cozinha. Ele já perdeu a conta de quantas vezes dormiu lá e já faz quase dez anos que a véspera do dia do aniversário de Gabriel recebe com muita antecedência um xis, em seu calendário, lembrando-lhe de não marcar compromissos. Eles são vizinhos de rua, mas nada pode separá-lo do seu melhor amigo no dia 28 de fevereiro. Deitado ao seu lado, com meio corpo fora da cama estreita,  ele lhe aplica um tremendo soco no braço.
- Ai! Isso dói, pô!
- Feliz aniversário, cara!

Moacir tira de baixo da cama um pacotinho cúbico e o entrega sorrindo ao grande amigo, que o pega com ar intrigado.
- Que é isso?
- Abre!

Gabriel destrói a embalagem que une as três caixinhas coloridas e que ele reconhece imediatamente.
- Tamanho grande! exclama Moacir, radiante.
- Nove camisinhas! Se cada uma atraísse uma mulher, eu estava feito!
- Lubrificadas! E a vermelha tem sabor!
- Legal, cara. Valeu mesmo. No ano passado, você me deu cueca e esse ano camisinha. No ano que vêm vai ser mulher?

Gabriel pula em cima do amigo e imobilizando-o entre suas pernas, o enche de socos fictícios fazendo barulho com a boca, sem imaginar o efeito que isso produz em seu amigo. Moacir guarda na memória as brincadeiras frequentes dos dois, que surgiram assim que eles começaram a ficar mais íntimos, quando ele vinha dormir na casa do Gabriel, e que duraram muito tempo. A seu ver, eles descobriram o sexo juntos e se ele hoje se orgulha do seu desempenho com as meninas, deve isso ao seu melhor amigo que, embora tímido nas conquistas, sempre foi – talvez por ser muito bem dotado – exibicionista e muito curioso das coisas do corpo. Do recuar do prepúcio às primeiras masturbações, passando pelo exame dessa coisa estranha e feia que é  o buraco do cu ou a pele franzida do saco, nada passou inexplorado durante os inúmeros banhos que tomaram juntos e durante a noite, colados um no outro na estreita cama em que eles mais uma vez se encontram nesse dia de aniversário. Quase imobilizado sob Gabriel, a única coisa que Moacir pode fazer é mexer a cintura e fazer um ruído que lembra ao seu amigo que ele está sentado precisamente "lá".
- Rebola, putinha! brinca ele, pondo a língua entre os lábios, suspirando e fechando os olhos.

Vencido por esse argumento, Gabriel sai de cima do amigo, que imediatamente baixa o elástico do short e lhe exibe o estado em que ele supostamente o deixou. E de fato, o membro mediano recoberto por um prepúcio de farta extremidade epidérmica arma-se, gira e vai deitar-se ereto na barriga branca, diante do olhar divertido e condescendente de Gabriel.
- Isso aí não cresce, hein!
- Mas bem que você gosta! retruca o outro.
- Você é que gosta do meu! pegando à força a mão do amigo para tentar trazê-la para si.

Moacir resiste e impede Gabriel de levar sua mão até onde ele adivinha que o amigo a levaria. Embora ele sinta falta dessas brincadeiras, eles agora cresceram e levá-las ao ponto em que eles as levavam até um ano ou dois atrás os deixaria encabulados um com o outro, como da última vez em que aconteceu, quando ele quase se deixou penetrar no banho e foi a dor que mostrou que era hora de por um ponto final nesse tipo de jogo. Ele se lembra que do dia seguinte em diante, eles passaram um bom tempo sem se ver e até mesmo os encontros esporádicos na rua eram dos mais constrangedores para ambos. Seria pena estragar tudo de novo, principalmente num dia de aniversário tão simbólico quanto o dos dezoito anos.
- E aí, tem notícias da Aninha?
- Que nada, cara. Só sei que ela está morando em Cabo Frio há quase dois meses. Meu cinema particular fechou! diz Gabriel, apontando para  a janela.
- Por que você não vai lá, cara?
- Lá onde: em Cabo Frio?
- É! Descobrir o endereço é mole; é só pedir a um irmão dela e pedir pra não dizer nada a ela.
- Eu sei, o problema não é esse. Mas se eu aparecer lá, ela vai ficar me olhando sem entender nada.
- E aí você fala com ela!
- Não é assim, cara. Até parece que é tão fácil. Eu estou pensando, mas ainda não sei. Mas vamos parar com esse papo. Já tem gente tomando café lá na cozinha e daqui a pouco começa a chegar gente. A galera vem toda para o churrasco.
- Hmm! Legal! Vou até comer bem pouco no café!

Sob um sol escaldante e a tentativa de refrescar os convidados com uma piscina de plástico e uma mangueira que desce diretamente da caixa d'água, o aniversário animado a funk e pagode, com muita cerveja, carne, arroz e maionese à vontade transcorre sem incidentes no quintal de cimento da casa de Gabriel. Meninas de biquíni revezam-se constantemente sobre uma mesa longa, dançando funk diante dos olhares apalermados dos mais jovens, dos mais velhos, dos mais tímidos e de alguns vizinhos pendurados nos muros. Casais ou grupinhos dançam juntos, alguns solitários zanzam para lá e para cá, outros correm de um grupo a outro implicando, troçando, rindo e bebendo, mas a atitude de exibição e conquista é a tônica e o aniversário de Gabriel é mais uma ocasião dentre tantas de recomposição das relações sociais, seja ela afetiva, sexual ou simplesmente diplomática, desse grupo de jovens típico de subúrbio carioca.

Quando, por volta das seis da tarde, os adultos decidem deixar os mais jovens à vontade e inventam desculpas para ir embora levando as crianças e os maisi velhos, Gabriel e Moacir caem no funk oferecido pelo MC Cláudio, morador da vizinhança e célebre por animar os bailes de sexta e sábado do clube local. Diante da indiferença dos namorados "blasés" às meninas mais ousadas, os mais inexperientes aguardam com impaciência a chance de colar-se aos corpos seminus das mais gostosas da festa. A carne é a metáfora mais expressiva do evento, conscientemente materializada por cada convidada que se exibe de todas as maneiras, competindo com as demais para obter a atenção dos rapazes cujos atributos foram previamente "provados" e aprovados por amigas. Os corpos dourados, mulatos, negros ou brancos entregam-se à dança espasmódica que revela dobras, curvas e reentrâncias, elevando progressivamente a temperatura da atmosfera já tórrida.

São dez horas da noite e ainda há brasa na churrasqueira, além de uns poucos pedaços de carne já carbonizada. Muitos foram embora, a música se acalmou e um pagode meloso repleto de vogais longas substituiu o funk para inspirar os casaisinhos que ocupam toda volta da casa de tijolo exposto e os grupinhos de amigos que fumam baseados rindo à toa. No meio do quintal, o aniversariante cambaleia, chutando copos de cerveja, comida, guardanapos e guimbas de cigarrro, perguntando-se se o cara de pau do seu melhor amigo teria ido embora sem se despedir, como tantos outros.
- Moa! Moacir!

Nada. Ele percorre a lateral da casa, sempre chamando, até que uma mão pesada em seu ombro o puxa trás.
- Chiu! Para de gritar, cara. A gente está aqui.
- Maykon? Cade o Moa?

Trata-se do mesmo Maykon que, segundo o Gabriel, "tirou" a virgindade de Aninha, portanto, não há simpatia entre eles e Gabriel o considera um penetra em sua festa. A bebedeira é a única explicação para o fato de que ele o segue até uma das casas coladas à sua, abandonada há meses pelos moradores que sobreviveram a uma violenta batida da polícia. Tudo que havia de roubável o foi, portanto só restam paredes sem telhado, portas e janelas vazadas e um "interior" relativamente limpo pelos jovens da vizinhança que utilizam a ruína para várias finalidades práticas.

Ao chegar, Gabriel ouve gemidos femininos e uma roda de convidados seus. Ele se aproxima e não tem dificuldade para reconhecer que o corpo com a bunda branca que se espreme entre as pernas mais escuras que a envolvem é do seu amigo Moacir. Com a chegada de Gabriel, um certo desconforto rompe a calma relativa que reinava entre os rapazes que esperam por sua vez de estar com essa menina que parece disposta a satisfazer um por um. Ele conhece o jogo, ainda que  não tenha participado nenhuma vez. Mas não parece ser isso que perturba um a paz local e ele não dá maior atenção ao fato, assistindo aos espasmos finais do seu amigo Moacir entre as coxas dessa convidada generosa. Quando ele sai de cima dela, Gabriel reconhece sua prima Maracely, que ele jamais poderia imaginar já ter atingido esse grau de promiscuidade, embora ele a visse em má companhia nos últimos tempos. Quando ela o vê, dá um riso debochado, deixando bem claro que ela não tem nenhuma intenção de voltar atrás e dar-lhe um presente de aniversário. Um rapagão magro de mais de um metro e oitenta baixa a calça, aplica a camisinha na cabeça do membro pronto e, com um cuidado extremo de não exibir a bunda, instala-se entre as coxas da jovem, arrancando-lhe um gemido surdo a cada estocada, diante das gargalhadas daqueles que conhecem suas dimensões antológicas. O rosto da jovem se desfigura, mas ela resiste para não dar vexame; se as outras fescobrissem que ela "amarelou" numa ocasião como essa, seria o seu fim. Por sorte, o álcool os impede de manter o vaivém por mais de um minuto ou dois e o dotadão é sucedido por um baixinho que a faz sorrir.
- Não vai, Gabriel? pergunta-lhe Moacir, desfazendo-se da camisinha para fechar a calça.
- Com a Maracely? Eu não, diz ele, indiferente.
- Só porque é tua prima? Ela é gostosa, cara!
- E daí? Meu pau não sobe com gente da família. Mas eu não sabia que ela já era tão puta.
- Dizem que ela está fazendo isso porque o Zebu botou chifre nela num baile aí.
- E ela acha que o chifre vai cair dando para todo mundo? Burra! Vai virar piranha como um monte delas.

Eles são interrompidos por gemidos muito fortes. No centro da roda, Maracely está de quatro por cima de um dos rapazes que a penetra vigorosamente na frente enquanto outro, com as pernas muito flexionadas a penetra verticalmente por trás sem tocar os joelhos no chão. A platéia gosta, abaixando-se para ver detalhes da cena. Após os orgasmos, outra dupla se reveza com essa e um terceiro vem oferecer seu membro duro a Maracely que o chupa com profusão de gemidos que vão parecendo gradativamente mais cansados aos ouvidos de Gabriel. Aparentemente, sua prima não contava com o fato de que os rapazes voltariam para a fila para comparecer mais de uma vez, mas é isso que está acontecendo e até Moacir se prepara para formar dupla com algum dos que já participaram.
- Gente... não estou aguentando... choraminga a ingênua, entre gemidos, enquanto os rapazes a manipulam e põem em todas as posições possíveis e imagináveis. Gabriel vai ficando ansioso, obrigando-se a pensar em alguma solução. Ele consegue fazer com que Moacir mude de idéia, mas com os outros será impossível. E eles continuam a alternar-se, em dupla ou não, a penetrar sua prima em todos os orifícios disponíveis e até o gozo. A certa altura, só resta à menina deitar-se de costas, estática, pernas e braços abertos na mesma posição, como alguem pronto a abraçar, e esperar que venham.

À medida que os cerca de doze rapazes vão se sentindo saciados, vão embora, até que restam na casa em ruínas apenas Gabriel, Moacir e Jorginho, um bom amigo comum de ambos, os três contemplando a imagem deprimente de Maracely soluçando nua e encolhida sobre folhas de jornal amarfanhadas.
- Te detonaram, hein, mana! apieda-se Jorginho, aproximando-se para tentar ver algum vestígio dessa loucura.
- Vamos nessa, Maracely. Se quiser, fica lá em casa até amanhã. A gente liga para a tua mãe e fala que você bebeu muito para ir para casa, oferece Gabriel, forçando uma sobriedade que normalmente só voltaria no dia seguinte, junto com a ressaca. Ela se levanta cambaleante, eles tapam-lhe os seios baixando a parte de cima do biquíni e vestem-lhe a calcinha deixada no chão. Seu corpo exala um forte odor de suor e sexo. Não há sangue, mas vêem-se restos de esperma nas coxas, costas, barriga, peito, rosto e cabelo, que começaram a secar e estão grudados. Não é sem repulsa que Gabriel e Moacir oferecem os ombros para ajudá-la a sair dali andando como se estivesse apenas bêbada para disfarçar. Felizmente é noite e eles conseguem rapidamente atravessar o quintal de Gabriel e levá-la para o banheiro. Como ela se sente capaz de ficar no chuveiro sozinha, os dois amigos voltam para o quintal e forçam a despedida dos últimos convidados, dois ou três casais e um grupinho que ri à toa envolto numa núvem de fumaça densa. Finalmente, eles entram em casa, passam pela sala onde Maracely ressona, deitada diretamente sobre o sofá, e entram juntos no chuveiro para um banho antes de dormir, um banho de amigos bêbados e cansados depois de uma festa de aniversário de dezoito anos que deixa um travo amargo e deprimente a ser lavado da boca assim que possível. Pela enésima vez, Moacir acomoda-se com meio corpo para fora na cama estreita do seu melhor amigo e eles dormem pesadamente até bem depois do meio-dia. Gabriel acordará pensando que é hora de tomar a primeira decisão séria de sua vida.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Eu gostaria de receber um parecer seu. Obrigado!