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Erotexto é um blogue dedicado ao erotismo que tem por característica uma rica diversidade de estruturas narrativas. Seu objetivo é triplo: entreter, desenvolver o interesse pela escritura e - o principal - motivar a reflexão sobre a libido e a busca do prazer, cujo fundamento biológico acredito ser de caráter essencial e universalmente bissexual.

Erotexto tem formato fixo. A primeira página comporta a última narrativa proposta (não necessariamente a última criação). O material arquivado consiste de contos e relatos classificados por categoria sob a rubrica "EroStock" (coluna à direita), bem como séries, novelas e folhetins. Para conhecer a acepção em que cada estrutura narrativa foi tomada, convido o leitor a clicar em "Pequena Teoria da Narrativa", aqui acima.

Uma comunicação contínua com o leitor faz-se através da rubrica "EroNovas", a primeira da coluna à direita. Meu e-mail está à sua disposição. Para reagir a uma publicação, clique na palavra "comentário", abaixo de cada texto.

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Marc Fauwel

Entre Mar e Montanha (folhetim, episódio XVI)


16. Lucidez em noite iluminada

Depois de alguma deliberação e propostas não muito empolgantes, decidimos pegar a estrada e voltar para a fazenda, descansar um pouco e ir procurar um lugar para dançar. Marta gostava e descobrir coisas bem típicas da região e conhecia uma espécie de clube onde os locais iam relaxar, tomar umas e outras e dançar forró às sextas à noite. Tomás e eu, dois urbanóides da classe média Zona Sul carioca, nunca havíamos posto os pés num forró. Guiado apenas pelo pressuposto de que seria um lugar de machões inveterados dispostos a quebrar garrafas para encarar forasteiros, tive receio, mas não me manifestei para não ser estraga-prazeres. Uma vez acolhida a idéia por consenso, rumamos para a fazenda, tomamos banho, nos vestimos e, por volta das 10h estávamos prontos.

Quando digo prontos, me refiro a uma camiseta limpa e bermuda, porque como eu disse no início, Tomás e eu não íamos à Região dos Lagos para repetir nossos programas do Rio. Mas Marta apareceu com uma calça jeans justa e baixa que deixava de fora quase todo o V que convergia em direção à virilha, e um top curto e sem sutiã. O piercing de esmeralda se destacava no pequeno e perfeito orifício da barriga plana e bem desenhada. Tomás não pode deixar de assoviar quando ela desceu a escada e deu uma voltinha.
- Você vai deixar a peãozada indócil, Marta!
- Já estou acostumada. Na adolescência eu ficava com os garotos daqui, sabiam? Beijei muito nesse lugar onde a gente está indo! Quando cresci um pouco mais, cheguei a ter pretendentes que brigavam por mim e que queriam casar a todo custo! Acabei preferindo parar de ir para não fazer alguma bobagem; já bastavam as minhas loucuras no Rio!
- Já pensou, você casada com um peão Cabo-friense, Marta, cheia de filhos acordando às quatro da madruga para administrar o trabalho da roça? Ha! Ha!
- Se eu não desse um basta, meu futuro teria sido esse mesmo. Mas faz tanto tempo que não vou lá que já esqueceram de mim. Bom, se você estiverem prontos, podemos ir.

O forró, situado a cerca de 2km numa transversal da estrada, não passava de uma casa caiada de branco com mesas na varanda e, para espanto da Marta, não era mais o lugar exclusivamente frequentado por peões que ela conhecera; havia carros não só das redondezas, mas do Rio, de toda a região fluminense de até de São Paulo. Animadíssimo, estava cheio no interior e cerca de 50 pessoas ainda se amontoavam na rua, em frente, para tomar cerveja, papear e fumar.
- Não estou reconhecendo isso aqui! exclamou ela, rindo.
- Alguma coisa me diz que vamos ter uma super noite, profetizou Tomás, todo animado.
- Gente bonita! murmurei, observando os da minha idade, reunidos em grupinhos animados.

Estacionamos um pouco mais longe, mas ainda à vista e tentamos entrar. A música não parecia ter mudado porque era de fato forró e música brasileira do interior. Mas Marta observou que ampliaram o lugar, agora uma sala retangular de uns 300 metros quadrados com mesas à toda volta exceto diante do balcão do bar e do pequeno palco onde músicos de verdade tocavam instrumentos elétricos e uma sanfona. No centro, uma multidão se comprimia, entre conhecedores vestidos com "roupa de sair" e leigos urbanóides apenas se divertindo, desajeitados mas felizes.

Marta, Tomás e eu fomos dançar juntos, o que já chamou atenção de alguns porque não só nos revezávamos com ela nos braços, esfregando-nos sem pudor, mas dançávamos com ela entre nós dois enquanto ela dava golpes de pélvis que sugeriam uma dupla penetração. As mulheres locais, fiéis e ciumentas, nos lançavam olhares um tanto indignados, como se estivéssemos inspirando más idéias aos seus cavalheiros. Mas havia outros grupos de jovens com menos mulheres que homens fazendo como nós, evidentemente vindos de fora. O forró é uma dança sensual porque o contato é constante e total. Isso além do suor dá um resultado um tanto incendiário e as meninas não locais acabam se soltando, dando às vezes a impressão de que um mínimo de liberdade ou álcool a mais as faria cometer algo mais explícito ali mesmo, diante de todos. Tomás foi ficando exaltado, me indicando casais em atitude extremamente excitante na pista de dança, mas principalmente nas mesas onde, por falta de lugar sentado, muitas meninas estavam instaladas nos colos dos namorados, algumas literalmente a cavalo, beijando-os e movendo-se lascivamente ao ritmo das mãos deles por dentro das blusas. Com a noite avançando e a cerveja rolando, o clima só podia esquentar.

Por falta de lugar sentado, nós comprávamos cerveja no bar e íamos tomar dançando. A certa altura, começamos a ir ao banheiro e Tomás me alertou para o fato de que aquele clubinho de província não perdia em nada para uma boate de capital. Assim que cheguei, percebi que os banheiros eram tão frequentados quanto a pista de dança. O banheiro masculino era uma área ladrilhada de uns 30m quadrados com uns 5 compartimentos e 5 mictórios. Uma única lâmpada fluorecente em extição havia virado pisca-pisca e o lugar estava quase às escuras, o cheiro forte no ar. Dois grupos logo me saltaram aos olhos: gays e junkies. O silêncio das pessoas contrastava com o barulho da música ao fundo. Parecia que ali, todos conheciam de cor os códigos e procedimentos para alcançar o resultado almejado. Alguns vinham só se aliviar, outros cheirar uma carreirinha e outros dar um mínimo de vazão ao desejo sexual que inegavelmente pairava denso no ar daquele inferninho.

Havia pessoas esperando não só fora como dentro do banheiro, entre as cabines e os mictórios. Quando pude enfim abrir o zíper e suspirar aliviado vendo o fio caudaloso e rápido colidir contra a cerâmica branca, ouvi gemidos atrás de mim. A porta entreaberta da última cabine deixava ver dois corpos em plena atividade, mas os caras de fora pareciam indiferentes, certamente habituados, apenas aguardando sua vez de entrar. Me senti numa espécie de feira com mercadorias variadas sendo abertamente oferecidos.

As pessoas se sucediam rapidamente nos mictórios e não fui exceção. Me afastei ainda fechando o zíper, lavei as mãos, saí da área ladrilhada e quando ia me preparando para emergir do sombrio corredor dos banheiros, uma mão espalmada no meu peito empurrou-me até uma parede livre enquanto outra me pressionava a calça, diretamente entre as pernas. Mal pude focalizar o rosto, de tão próximo, mas ouvi uma voz mais velha que a minha e um hálito forte de cachaça. "Curte o quê, garoto?" sussurrou ele, o corpo rígido colado ao meu e a boca no meu ouvido, procurando apalpar os resquícios de excitação que perduravam na minha calça.

Ainda me vejo empurrando-o com as duas mãos e voltando desabalado para o salão, as retinas carregadas da imagem do homem de cerca de trinta e cinco anos, mal barbeado e rude, certamente alguém do lugar. Não contei nada, na hora, aos meus amigos, mas Marta passou a mão no meu rosto e ajeitou minha franja, perguntando se eu tinha visto assombração. Desconversei e continuamos nos divertindo, mas no tumulto da pista de dança, olhando toda aquela gente e, sobretudo, aquele mesmo homem, que eu via agora agarrado a uma mulher, meu cérebro desembestou. Que fascínio é esse que o jovem exerce no homem, independentemente da sua opção sexual, esse encanto que o hipnotiza e leva às vezes a agir por puro instinto animal? Pela primeira vez e, ironicamente, fora do Rio de Janeiro, senti-me como presa potencial de animais à caça, animais que buscam apenas saciar um apetite, sem paixão e, muito menos, amor. Isso abriu mais uma porta do meu complexo labirinto perceptual. E sei que a partir daquele exato momento de reflexão, talvez ainda precocemente, passei a enxergar na multidão bem mais do que homens e mulheres se divertindo numa pista de dança.

Marta, Tomás e eu devemos ter dançado sem parar das onze da noite às três da manhã seguinte. Ela dirigiu bêbada de volta à fazenda pela estrada deserta. Na enorme cama de baldaquim, já passava largamente do meio-dia quando o primeiro de nós abriu os olhos e saudou os raios de sol que penetravam em planos feixes dourados pelas fendas da veneziana.

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